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No PNUD conheci o impacto de projetos sociais na vida real

  • Celina Arraes
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Entrei no sistema das Nações Unidas em janeiro de 1999, em um momento em que eu própria vivia uma grande transição. Um mês antes, havia me aposentado do Banco Central do Brasil, onde construí uma carreira longa e intensa e cheguei ao cargo mais alto permitido à carreira técnica. Gostava profundamente do que fazia, mas a mudança no regime jurídico dos servidores e a perda da previdência complementar abalaram minha confiança no futuro. Diferentemente da maioria dos colegas, eu não acreditava que a aposentadoria pública fosse suficiente para garantir tranquilidade no longo prazo. Mais do que isso, sentia que precisava começar algo novo.


Foi assim que, incentivada pelo meu marido que tinha sido consultor em um projeto, me candidatei a uma vaga no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), depois de ver um anúncio de recrutamento no jornal. Eu não vinha da área social, mas levava comigo anos de experiência em gestão pública, planejamento e execução de projetos. Após um processo seletivo cuidadoso, fui contratada como gerente de projetos da área social do PNUD Brasil. Eu não imaginava, naquele momento, que estava iniciando uma trajetória que duraria quase 14 anos e que transformaria profundamente minha vida profissional.


Celina ao centro (de azul) com colegas do PNUD, início de 2000
Celina ao centro (de azul) com colegas do PNUD, início de 2000

No PNUD, descobri um mundo muito diferente daquele que eu conhecia. Logo nos primeiros anos, trabalhei com projetos nas áreas de saúde, direitos humanos, desenvolvimento local e microcrédito. Acompanhei de perto o apoio à criação da Anvisa e da Agência Nacional de Saúde (ANS), participei de iniciativas de informatização do SUS e de coordenação interagencial do enfrentamento ao HIV/Aids. Mas foram os projetos de direitos humanos que mais me marcaram. Viajar pelo país, conhecer mulheres que se tornavam promotoras populares na defesa de seus direitos em suas comunidades e perceber que aquelas experiências piloto se transformavam em políticas públicas me deu, pela primeira vez, a sensação concreta de impacto direto do meu trabalho na vida das pessoas.


Ao longo do tempo, assumi novas responsabilidades dentro do escritório do PNUD no Brasil. Coordenei a implantação da área de aquisições, um período difícil, de muito desgaste e pouco reconhecimento, mas que me ensinou muito sobre limites institucionais e resiliência. Mais tarde, passei a cuidar do planejamento estratégico, do monitoramento e da gestão de riscos de dezenas de projetos. Presidi comitês, acompanhei auditorias e vivi de perto a complexidade de manter um organismo internacional funcionando com rigor, transparência e credibilidade. Um dos momentos mais desafiadores foi a organização do lançamento global do Relatório de Desenvolvimento Humano de 2007, dedicado às mudanças climáticas, em meio a tensões políticas e operacionais.


Lembrança da equipe de trabalho no PNUD, 2013
Lembrança da equipe de trabalho no PNUD, 2013

Depois de um breve retorno ao Banco Central, voltei ao PNUD, em 2010, para assumir a coordenação da área responsável pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, depois Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, e pelo relacionamento com o setor privado. Essa fase foi, para mim, especialmente significativa. Trabalhei intensamente na construção de parcerias, na mobilização de empresas, governos e sociedade civil e no fortalecimento do Pacto Global da ONU no Brasil. Um momento especial nessa fase foi a participação de evento do Pacto Global durante a Rio +20. Acompanhar a transformação de ideias em campanhas, projetos e compromissos concretos me trouxe grande satisfação profissional.


Aposentei-me definitivamente do PNUD em 2013, consciente de que meu ciclo ali havia se completado. Voltei ainda como consultora em momentos pontuais, mas já com o desejo de abrir espaço para uma nova geração. Hoje, na aposentadoria, acompanho com interesse os temas de desenvolvimento, sustentabilidade e políticas públicas, mas com outro ritmo. Olhando para trás, sei que deixar o Banco Central foi um risco e que entrar no sistema das Nações Unidas foi uma aposta. Foi também uma escolha que me permitiu sair do gabinete, conhecer o país real e dar um novo sentido à minha trajetória profissional. Não me arrependo.


Celina Arraes atualmente
Celina Arraes atualmente

Não parei com a aposentadoria, ainda fiz consultorias para o PNUD nas áreas de Monitoramento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e na finalização do Relatório de Negócios Inclusivos no Brasil. No lado pessoal, depois de aposentada passei seis anos cuidando do meu marido, Olavo Cesar da Rocha e Silva, que teve demência por Corpos de Lewi e precisou de cuidados até o final de sua vida, em agosto de 2025.


Agora me dedico mais a cuidar do corpo e do espírito, como eu nunca pude fazer antes, com exercícios físicos e aulas de dança, além de ajudar a cuidar do meu neto de 5 anos. Aproveito para sair com as amigas e ir a teatro, cinema e exposições. De trabalho mesmo só na AAFIB, da qual atualmente sou tesoureira voluntária.


Também tenho avançado com dois projetos pessoais: concluir um livro de minhas memórias, que está bastante avançado, e escrever, com minha irmã, um livro de memórias de minha mãe, que comemoraria seus 100 anos em 2026, mas faleceu em 2023 com 96 anos. O que não falta são atividades. A vida de aposentada tornou-se muito mais interessante do que eu imaginava!

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