top of page

"Esta dor eu conheço", a trajetória de Maria Helena Mueller na Bósnia

  • AAFIB
  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Como uma mulher, muitas vezes única responsável por sua família e filhos, consegue se reerguer e reconstruir sua vida depois de situações tão difíceis como uma guerra? Foi com esta indagação que Maria Helena Henriques Mueller, atual vice-presidente da AAFIB, chegou em sua primeira função fora da sede da UNESCO, logo no ano seguinte ao que entrou na Organização, em 1994, em plena guerra da Bósnia. Uma circunstância muito particular a levou a aceitar a delicada função de trabalhar em um país uma guerra, o que nenhuma outra pessoa queria assumir: fazia pouco tempo que Maria Helena tinha perdido o marido e um filho. 

 

"Como eu passei por duas perdas, eu sabia muito bem a dimensão de perder uma pessoa querida. Podia dizer a essas mulheres: esta dor eu conheço", conta Mena, como é carinhosamente chamada por amigos e colegas. Mas esta não foi a única razão que a fez aceitar uma tarefa tão complexa. Ela tinha morado antes em Istambul por três anos, então tinha conhecimento da cultura e da religião muçulmana, o que faz diferença em qualquer trabalho, especialmente quando uma grande parte da população afetada vem desta tradição cultural. "Não sendo uma agência humanitária, esta foi a primeira vez que a UNESCO entrou para trabalhar em um país em guerra. E o que pesou foi que aquela guerra tinha origem em razões culturais", explica ela.


Primeiro lançamento do livro "Calêndula" em Curitiba, em novembro de 2025
Primeiro lançamento do livro "Calêndula" em Curitiba, em novembro de 2025

Este momento vivido por Maria Helena e muito mais está contado no delicado livro Calêndula, de autoria da jornalista Mariana Ceccon. Mariana tomou conhecimento da história quando trabalhava no UNIC-Rio e procurou Maria Helena para escrever uma matéria de comemoração dos 75 anos das Nações Unidas. Só que o assunto rendeu muito mais e tornou-se um livro, para o qual a jornalista chegou a entrevistar outras mulheres dessa mesma época para contar as diferentes percepções desse processo de reconstrução. O assunto virou tema de tese sobre o cuidado como linguagem política e tornou-se um livro no final do ano passado.



 

Foto 1 - Reunião de Maria Helena com o embaixador americano aposentado que chefiava a iniciativa para reconstruir Sarajevo, 1994.

Foto 2 - Edifícios destruídos na Bósnia, 1994.

Foto 3 - Interior de avião russo que fazia a ponte humanitária e levava tropas e pessoal que trabalhava na reconstrução do país, 1994.


 Na Bósnia

 A seleção de Maria Helena para ocupar a função na Bósnia começou com o fato dela ter realizado um evento muito bem-sucedido na sede da UNESCO, seu primeiro trabalho como demógrafa assim que foi contratada, o que deu a ela grande visibilidade na Organização. E era um momento em que a diplomacia brasileira tinha uma imagem muito boa no cenário internacional, então havia confiança nos profissionais brasileiros. Além disso, o representante da Espanha junto ao Conselho Executivo a conhecia, pois havia sido diretor da FLACSO em Santiago do Chile no mesmo período em que Maria Helena estudou e trabalhou no CELADE, ambas instituições acadêmicas amparadas pelas Nações Unidas. Mesmo com todas essas razões ela diz que "pesou contra mim o fato de eu ser mulher, não tenho ilusão. Mas como nenhum homem queria aceitar o posto e eu fui aprovada em várias conversas com as autoridades locais, me aceitaram", conta. 

 

Antes da UNESCO indicá-la oficialmente para o trabalho, Mena foi entrevistada duas vezes pelos dirigentes da Bósnia, sendo uma vez pelo vice-presidente do país, que foi a Paris com este objetivo. O diretor-geral da UNESCO na época, o espanhol Federico Mayor, também a entrevistou e chegou a atender os pedidos da mulher que iria encarar uma guerra violenta em nome da Organização e marcada por crueldades poucas vezes vistas - como o uso do estupro como arma. "Eu disse a ele que eu precisava chegar naquele ambiente com gestos importantes e ele acatou o meu pedido e me deu carta branca para trabalhar. Me disse que preferia justificar meus erros do que ter que explicar um imobilismo...". 

 

A presença de mulheres à frente das agências humanitárias na Bósnia foi um momento único. Estavam lá, além da UNESCO: UNICEF, OMS, ACNUR e WFP. Todas as representantes unidas em uma única direção: o compromisso de fazer chegar à população o que cada agência e fundo, dentro de seus mandatos, podia fazer. "Então primeiro foi necessário conquistar a confiança dessa população para que fosse possível, junto com as agências e fundos das Nações Unidas, reconstruir uma forma humana de vida, porque as dificuldades eram enormes. Não tinha material nem mão-de-obra. E foram as mães que se organizaram para dar aulas para as crianças, nos espaços das escolas, em porões e outros lugares que fossem seguros. Essas mulheres tiveram um papel crucial na reconstrução". Mulheres na direção e mulheres na ação, modelo que contribuiu muito para aliviar a vida de várias pessoas em meio a uma guerra.


Maria Helena esteve no comando da UNESCO em Sarajevo de março de 1994 a julho de 1995. Um período muito intenso, que a mudou como pessoa. "Isso no sentido mais duro: sobre o que é a maldade humana e até que ponto o ódio pode levar as pessoas. A reconstrução das relações é bastante complexa e demorada", conta. "Entrei em um universo da construção do ódio que eu não imaginava ser possível e, ao mesmo tempo, nesse ambiente, fiz parte da construção da escuta atenta, da busca por soluções para o sofrimento das pessoas. Isso tudo ficará para sempre dentro de mim".


Sobre os lançamentos de Calêndula

O próximo lançamento de Calêndula será no Rio de Janeiro, na Casa da Cultura de Paraty - parceira da AAFIB - no dia 11 de abril, às 18h, e estão todos convidados. O enfoque da discussão que apresentará a publicação será "O papel das mulheres na gestão de conflitos, como na Bósnia". Participarão da mesa, além da autora, a jornalista Mariana Ceccon, a principal fonte de informação da publicação, Maria Helena Henriques Mueller, vice-presidente da AAFIB, com a coordenação de Belita Cermelli, paratiense e diretora de Educação e Cultura da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty. O evento acontecerá no auditório da Casa da Cultura (Rua Dona Geralda 194, Centro Histórico) e está sendo discutido o formato híbrido, incluindo a participação virtual. Em breve a decisão final será anunciada.

 

A coordenadora Belita Cermelli é co-fundadora e diretora da Associação Casa Azul, organização não governamental que realiza a FLIP. Nascida em Paraty, é licenciada da Universidade de São Paulo – USP; foi professora de Física e Matemática; coordenou e atuou em eventos sobre temas culturais e coletivos. É a responsável pela direção geral do Educativo FLIP.

 

Lançamento do livro "Calêndula" em Curitiba, em 2025, Maria Helena Henriques Mueller e a autora, Mariana Ceccon


O primeiro lançamento do livro aconteceu em novembro de 2025, no Festival Casa Literária em Curitiba, Paraná, na Nex House (BATEL). Foi organizado pela Editora Arte e Letra e contou com a presença da autora, Mariana, de Maria Helena e do mediador André Volpato, doutorando em literatura pela UNICAMP e preparador do texto do livro. O debate foi intitulado “Memórias do front: jornalismo literário como ferramenta para recontar histórias de cuidado”. A ideia é que aconteçam lançamentos em outras cidades brasileiras.






AAFIB_ver_neg_edited.png

 
Endereço: Centro de Informações da ONU/UNIC-Rio - Palácio Itamaraty
Av. Marechal Floriano, 196 - Centro  
Rio de Janeiro - R.J. - CEP.: 20080-002
                                                      
bottom of page