Cairo + 20

 

As Grandes Conferências da ONU, o Desenvolvimento e a Governança Global

 

George Martine[1]

 

A Comissão sobre População e Desenvolvimento (CPD) da ONU vai realizar a sua 47ª seção ordinária entre os dias 07 e 11 de abril de 2014, para avaliar os 20 anos da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), ocorrida na cidade do Cairo, em 1994. A celebração desse processo, conhecido como Cairo + 20, representa um momento oportuno para se fazer um balanço das grandes conferências da década de ’90 e do papel da ONU no processo de desenvolvimento e na governança global. O fato é que a sequência de conferências globais realizadas entre 1992 e 1996 marcou um dos melhores períodos na trajetória do sistema das Nações Unidas. Esses eventos refletiram um momento histórico extraordinário de iniciativas multilaterais visando reorganizar a trilha social da humanidade e estabelecer uma nova governança global em temas cruciais: o exercício de direitos, a sustentabilidade, a dinâmica demográfica, a política social, a equidade de gênero, a habitação e a fome.

A CIPD do Cairo  foi realizada no ano seguinte à Conferência de Viena sobre direitos humanos e dois anos depois da ruidosa e exitosa Rio ’92 sobre sustentabilidade. Fortemente influenciada por esses dois eventos anteriores, o Programa de Ação do Cairo (PoA) teve como mote a reconfiguração das questões demográficas dentro de uma perspectiva de direitos. Da mesma forma, a Conferência teve uma forte preocupação com o “desenvolvimento sustentável” e o PoA cita esse conceito oitenta vezes ao longo do texto. A CIPD foi seguida por uma série de outras conferências internacionais organizadas pelas Nações Unidas, entre as quais a de Beijing (mulheres) e a de Copenhague (políticas sociais) foram as mais notáveis. A lista completa de eventos internacionais organizadas pelas Nações Unidas entre 1992 e 1996, mostrada na Tabela 1, reflete a ansiedade global com os rumos do desenvolvimento na época, mas também retrata a influência inusitada exercida pelo sistema da ONU sobre questões sociais naquele momento.

 

O conjunto destes eventos engendrados no seio da ONU foi motivado por diversos condicionantes históricos que estimularam negociações multilaterais em busca de uma nova governança internacional.  Os ecos de problemas globais como a crise do petróleo, as dívidas externas galopantes, a ‘década perdida’ dos anos 80 e suas repercussões em termos do aumento da pobreza e da miséria, o aumento da consciência ambiental e a preocupação com novas ameaças como a chuva ácida nas grandes cidades do mundo desenvolvido, a derrocada do regime soviético e a derruba do Muro de Berlim – todos estes e outros fatores deixavam o mundo ansioso para discutir as grandes questões globais e o futuro da humanidade. Os organismos multilaterais representavam o caminho lógico para o manejo coletivo desta mistura de ameaças e novidades, num mundo ao mesmo tempo dividido e interdependente.

Em síntese, a sequência de sete Conferências Internacionais entre 1992 e 1996 refletia a ansiedade do mundo para uma nova governança internacional.  A CIPD foi a terceira destes eventos e teve grande repercussão na concepção de políticas demográficas e na redefinição da relação destas com processos de desenvolvimento. Tratou de praticamente todos os temas “populacionais” que se consideravam importantes para o desenvolvimento naquele momento histórico. Mas a principal contribuição da CIPD foi a de tratar população e desenvolvimento de forma integrada e equilibrada, dentro de um paradigma enfocado no exercício dos direitos humanos. Assim, o Cairo conseguiu mudar o rumo das discussões internacionais sobre “população”. Ao mesmo tempo, trilhou brilhantemente novos caminhos, particularmente no fortalecimento da equidade de gênero e na redefinição de parâmetros e prioridades em matéria de saúde sexual e reprodutiva.

 

Resultados Concretos das Conferências?

 

Passados 20 anos deste evento marcante, cabe refletir sobre o impacto que teriam tido a CIPD e as outras grandes conferências da década de ’90. A revisão das tendências globais nos terrenos socioeconômicos e demográficos desde a época do Cairo sugere importantes avanços em muitos aspectos. Observa-se claramente uma melhoria em vários indicadores sociais. Acima de tudo, houve uma forte redução da pobreza e esta condicionou, direta ou indiretamente, muitas das melhorias observadas em outros domínios sociais. Essa redução dramática nos níveis de pobreza é refletida no Gráfico 1.

 

Fonte - ICPD Beyond 2014: Global Review Report, United Nations, New York, 2014. 

 

Todas as Conferências da década de 90 apresentaram excelentes princípios, recomendações e resoluções cuja validade permanece até hoje. Entretanto, é difícil estabelecer uma relação de causalidade entre a realização das reuniões globais da década de ’90 e o progresso social extraordinário alcançado durante as duas últimas décadas. Podemos presumir que, em termos gerais, essas conferências contribuíram para a delineação de princípios importantes e duradouros. Também favoreceram uma maior conscientização ambiental e maior atenção para políticas demográficas centradas nas pessoas, destacando a importância da questão social nas políticas públicas, a equidade de gênero e, em geral, o maior exercício de direitos.

Sem embargo, a explicação para a forte redução da pobreza, fenômeno que teve um impacto determinante para a melhoria de vários outros indicadores, tem que ser buscada em outro terreno, ou seja, no forte crescimento econômico sustentado, particularmente a partir do final da década de ‘90. Mesmo para os detratores e críticos do paradigma neoliberal imperante durante esse mesmo período, há reconhecimento de que o crescimento econômico, a despeito das desigualdades sociais, propiciou o aumento da renda de uma enorme massa de pessoas, ao tempo em que fortaleceu a base fiscal do setor público de muitos países, facilitando assim a adoção de mecanismos de redistribuição mais eficazes.  Ou seja, apesar das crises econômicas globais recorrentes e da desigualdade econômica crescente nas duas últimas décadas, não há como negar a redução significativa da pobreza mundial e a melhoria das condições de vida de um enorme contingente de pessoas.

 

Neste particular, é significativo que nenhuma das grandes conferências globais tratou diretamente desta questão determinante – a economia. Essa omissão faz recordar a afirmação atribuída ao estadista francês Georges Clemenceau de que a guerra é importante demais para ser deixada na mão dos generais. Aparentemente, a questão da economia global era importante demais para ser discutida num fórum global constituído por quase duzentos países heterogêneos. Sem dúvida, porém, a trajetória econômica do mundo foi também delineada mais ou menos na mesma época das primeiras grandes conferências globais. O discreto e virtual “Consenso de Washington”, cunhado nas discussões entre o Banco Mundial, o FMI e o Tesouro Americano, conseguiu efetivamente colocar a economia mundial nos eixos pretendidos depois da “Década Perdida”, utilizando receitas baseadas na estabilização macroeconômica e na abertura dos mercados ao capital internacional. Querendo ou não, esse paradigma foi adotado pela maioria dos países e tem tido um êxito impressionante nas últimas décadas em termos de aumentar a riqueza material da humanidade, embora grande parte dos benefícios tenha sido apropriada pelos 1% mais ricos da população mundial.

 

O problema do desenvolvimento hoje

 

Se as conferências globais tiveram um êxito relativo na promoção de uma visão mais condizente com o desenvolvimento social, e se o Consenso de Washington conseguiu elevar a renda e reduzir a pobreza de uma grande massa de pessoas que estão agora incluídos na economia de mercado – qual é o problema então? Além do aumento da desigualdade, o problema é que temos agora um único caminho para o crescimento econômico e a redução da pobreza – o “imperativo do crescimento material” – e, sobretudo, o fato de que esse caminho é insustentável no curto, médio e longo prazo. Na realidade, este caminho até põe em risco os princípios e os êxitos obtidos nas Grandes Conferências. Vale a pena examinar melhor a incompatibilidade entre esse paradigma de desenvolvimento e os eventos internacionais da década de ’90, marcados principalmente pela preocupação com o exercício dos direitos humanos e com a sustentabilidade.

 

Para funcionar, o atual paradigma de desenvolvimento exige o aumento constante da produção e do consumo; esses aumentos são conseguidos através de ‘throughput growth’. Utiliza-se energia para transformar recursos naturais em produtos que são consumidos no mercado e, posteriormente, transformados em dejetos. Todas as etapas deste processo contribuem crescentemente para o aguçamento de ameaças ambientais. Assim, a maior parte da energia utilizada não é renovável e seu processo de extração gera contaminação ambiental crescente. A atividade produtiva, em que pesem os avanços tecnológicos constantes, também cria problemas ambientais crescentes no campo e nas cidades, conforme conhecimento geral. Parte da estratégia do mercado que garante uma demanda crescente por produtos é a obsolescência planejada e percebida. Estas fazem com que os consumidores estejam constantemente trocando seus objetos de consumo por mais novos, seja porque eles estragam facilmente ou porque os novos produtos no mercado apresentam uma modificação qualquer que os tornam, temporariamente, mais atraentes. Como o ciclo de utilização de uma quantidade crescente de produtos é muito curto, gera-se uma enorme quantidade de dejetos que poluem o ar, a terra e a água.

 

Quem garante a continuidade e o crescimento constante do ciclo de throughput growth é a cultura do consumo.  Desde o berço, somos convencidos de que comprar e consumir é o que nos faz feliz. Estes valores relacionados com o desejo de consumir são alimentados por um conjunto de forças extraordinariamente eficientes. Estas incluem não somente as corporações e empreendimentos comerciais, mas os próprios mecanismos do mercado (incluindo crédito, cartões, internet, etc), os meios de comunicação de massa (onde gasta-se mais de 500 bilhões de dólares anualmente em propaganda), as agências internacionais de desenvolvimento, os governos e mesmo as instituições tradicionais como as escolas, algumas religiões e a família. Sustentada por essa poderosa aliança, a cultura do consumo transformou-se na maior força humana neste século, superando religiões, crenças, ideologias, etnias ou partidos políticos. A pressão para consumir vem de todos os lados. Todos nós somos ao mesmo tempo vítimas e colaboradores da eficácia tentadora desta cultura. Somos como hamsters na esteira de consumo, correndo para trabalhar para poder consumir cada vez mais, sem com isso alcançar a felicidade. Sim, porque, infelizmente, as ciências sociais demonstram repetidamente que consumir NÃO traz a felicidade.

 

Poderíamos perguntar - se o modelo de throughput growth é insustentável e se, no final das contas, não gera a felicidade – porque as agências de desenvolvimento, os governos e as instituições estão tão empenhados em promover o crescimento econômico via este modelo? A resposta é simples: porque todos querem acabar com a pobreza e a miséria e essa combinação entre o modelo e a cultura do consumo tem se mostrado muito eficaz para promover o crescimento do PIB, o aumento da riqueza material e também a redução da pobreza.  É muito eficaz também na satisfação dos nossos anseios de consumo e, portanto, o apoio a esta cultura consumista favorece a popularidade política. Ou seja, a eficácia da motivação individual para consumir se traduz em aumentos constantes de produção em nível agregado, o que agrada a quase todos e produz êxitos eleitoreiros. Com isso, fomentar o consumo passou a ser a função principal dos governos e é também promovido pelos organismos multilaterais de desenvolvimento!

 

Infelizmente, esse desenvolvimento econômico se faz às custas da natureza e do equilíbrio ecológico. Por conseguinte, o desenvolvimento “sustentável” é hoje um oximoro.  A expansão física da economia exige a dilapidação de uma quantidade crescente de recursos, incluindo os não renováveis. Em consequência, promove a geração de quantias crescentes de dejetos, inclusive dos gases de efeito estufa que, por sua vez, estão na raiz das mudanças climáticas globais já em curso, assim como de outras grandes ameaças ambientais.

 

O risco de continuar ignorando os limites ambientais globais é gravíssimo. Estima-se que as atividades antrópicas já superaram a capacidade de auto-regeneração em mais de 50%; ou seja, o nosso planeta precisaria de um ano e meio para regenerar o que usamos em um ano. Um trabalho seminal escrito em 2009 por 29 cientistas da University of Stockholm’s Resilience Center mostrou que o uso abusivo dos recursos materiais, energéticos e bióticos da Terra pelo sistema econômico global já tinha superado os pontos de rotura (tipping points) em três campos conhecidos − mudanças climáticas, diversidade biológica e teor de nitrogênio na biosfera − e ameaça excedê-los em seis outra áreas (Rockstrom et al., 2009; UNEP, 2012b). Uma pesquisa mais recente publicada por 22 cientistas da Universidade da Califórnia alerta para o fato de que o planeta está na iminência de sofrer um “state shift”, ou seja, uma transição crítica que, repentinamente, altera as tendências conhecidas, produzindo efeitos bióticos não antecipados (Barnosky et al., 2012).

 

A ameaça mais óbvia e mais discutida, mas não necessariamente a mais grave, refere-se às mudanças climáticas. O AR4 (2007) do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), produzido pelos mais destacados cientistas do planeta, lançou uma dura advertência sobre a realidade do aquecimento global e, consequentemente, mostrou um “cartão amarelo” para o estilo de desenvolvimento baseado na queima de combustíveis fósseis e na continuidade do modelo de produção e consumo já criticado pela CIPD. Estas advertências estão sendo sistematicamente reiterados e enfatizados nos trabalhos do AR5, a serem publicados em 2014.

 

A maioria dos cientistas que trabalham com estas questões está absolutamente convencida de que as mudanças climáticas já estão ocorrendo e que isto deve-se ao que o Cairo chamava de “padrões de produção e consumo” da sociedade global.  Com exceção da ciência econômica que, pelo menos em parte, continua embevecida pelo “milagre do mercado”, a ciência hoje é quase unânime em afirmar que esse modelo de desenvolvimento nos levou à beira do desastre ecológico. Ou seja, nesse período “antropoceno”, o principal responsável pela crise é a ampla difusão e aplicação do que tem sido chamado de “o imperativo do crescimento” (Jackson, 2009).

 

O grande dilema do século 21

 

Neste momento histórico, portanto, estamos vivenciando uma situação global paradoxal: o desenvolvimento é relativamente eficaz, mas não é sustentável. Por um lado, as condições de vida de uma enorme parcela da população mundial estão melhorando progressivamente, fazendo com que, apesar das enormes desigualdades e dos arquipélagos de pobreza restantes, a humanidade esteja, sem dúvida, nas melhores condições socioeconômicas da sua história. Por outro lado, o caminho seguido para alcançar esse progresso carrega consigo as sementes de uma terrível ameaça global para a humanidade.

Qualquer discussão da governança global futura precisa ser embasada no reconhecimento dos limites do atual padrão de desenvolvimento. O embate entre economia e ecologia gera o maior dilema da história da humanidade. A redução da pobreza nas condições atuais exige o desenvolvimento econômico. A pobreza global continua grande: 1,2 bilhões de pessoas estão na extrema pobreza e 900 milhões passam fome. A massa mundial de consumidores que participa diretamente do projeto de throughput growth através do mercado global ainda é minoria, pois essa minoria, a classe média e alta, representa apenas um-terço da população mundial. Entretanto, o consumo feito por essa minoria já é mais do que suficiente para ameaçar os limites ambientais globais.

 

Além da insustentabilidade do atual paradigma de desenvolvimento, existem claros sinais de que ele já atinge seus próprios limites, por várias razões. Um dos limitantes se refere ao esgotamento da sua fonte principal de energia. O desenvolvimento que conhecemos foi possível graças a uma fonte de energia fantasticamente eficiente e barata. Como explica Abramovay, “A eficiência energética do petróleo é.....inigualável: três colheres contêm o equivalente  à energia média de oito horas de trabalho humano.”  Mas essa fonte fantástica está acabando ou ficando muito cara. A produção convencional de petróleo cru atingiu seu pico em 75 milhões de barris. Hoje, 60% da oferta mundial vem de países cuja produção não cresce. As alternativas que estão surgindo (gás de xisto, tar sands, pré-sal) são mais caras e sua extração apresenta ameaças ambientais maiores. Portanto, a humanidade está enfrentando o que costuma ser chamado de ‘abismo energético’ pelo fato de que a geração de mais energia exige cada vez mais energia para ser extraída ou utilizada. As alternativas de energia renovável (eólica, solar) precisam ser exploradas, mas também têm suas dificuldades e limitações.

 

Existe também um temor bastante difundido de que o próprio ritmo de crescimento econômico observado nesse início de século não seja sustentado. Várias razões complexas contribuem para isto. Basta mencionar aqui alguns fatores: o fim da energia barata aumenta os custos de produção; as restrições ambientais que deverão inevitavelmente ser impostas e o esgotamento de recursos limitarão o crescimento; as crises econômicas existentes já não estão sendo resolvidas, levando a uma estagnação secular; o ciclo de crescimento global impulsionado pelos países emergentes, especialmente a China e a Índia, apresenta sinais de esgotamento. Em suma, parece que o próprio padrão de crescimento econômico se exaure.

 

Entre certos economistas é comum a crença de que a competência do mercado no campo do desenvolvimento tecnológico será capaz de superar estes obstáculos e de contornar os efeitos ambientais nefastos do crescimento econômico. Esta confiança se esbarra em pelo menos dois fatores principais. Em primeiro lugar, a tecnologia não tem condições de resolver nada se não contar com os recursos materiais e energéticos da natureza; conforme já mencionado, a disponibilidade de fartos recursos fósseis está acabando e não existem outras fontes de energia, renováveis ou não, que possam substituir esses mananciais tão fantásticos e baratos (e geradores de CO2). As fontes de outros materiais importantes, por exemplo, na área da eletrônica, também se esgotam. Segundo, os aumentos da produtividade permitidos pela tecnologia acabam elevando o consumo a níveis mais altos devido ao custo reduzido dos produtos, conforme explicitado pelo Paradoxo de Jevons.[2]

 

Uma última limitação à perpetuação do modelo dominante se deriva do conjunto de frustrações que ele suscita, de maneiras diferenciadas, em todas as classes sociais. Nas classes ‘C’ e ‘D’ do mundo inteiro, aumentar o consumo eleva a felicidade das pessoas até elas alcançarem a satisfação das necessidades básicas de alimentação, habitação, conforto mínimo, etc. Mas a experiência histórica mostra que ninguém pretende ficar só na satisfação de necessidades básicas e o salto para o próximo nível de consumo nem sempre é fácil. O “funk ostentação” e os “rolezinhos” recentes no Brasil são exemplo claro disso.

 

Nas outras classes consumidoras (classes média e alta), o consumo é mais intenso, mas assim mesmo, termina não gerando a felicidade e acaba até frustrando porque é impossível atingir uma situação de plena satisfação com a novidade e status do produto adquirido, por mais que a pessoa compre. Isto porque o próprio mercado sempre gera um produto novo que apresenta algum detalhe diferente ou porque pessoas do grupo de referência terão adquirido algum produto melhor ou mais novo.

Nos outros dois-terços da população global, ou seja, entre a população que não participa efetivamente da economia de mercado, a propagação das informações sobre a opulência e a desigualdade de outros grupos sociais inevitavelmente gera frustração e inveja. Hoje em dia, até os recantos mais distantes do mundo estão conectados pelo celular e a internet. Não há como esconder as disparidades chocantes entre diferentes grupos sociais que caracterizam as sociedades atuais.

Juntas, essas frustrações diferenciadas, numa sociedade materialista, são explosivas e se acendem com qualquer centelha. Os últimos anos têm apresentado diversas instâncias de rebeldia social e política de caráter indefinido em várias regiões do mundo. Espontâneos e acéfalos, esses movimentos se organizam através das redes sociais e se divorciam de ideologias e partidos tradicionais, refletindo uma enorme insatisfação e um repulso generalizado de caráter elusivo. Mesmo sem entrar numa discussão mais profunda da etiologia e das consequências de tais movimentos, fica claro que elas representam uma ameaça para o futuro tranquilo do ‘desenvolvimento’ tal como o conhecemos. 

 

A urgência de uma nova governança

 

Dada essa situação preocupante, onde poderíamos buscar as fontes de uma nova governança global, capaz de reacender as esperanças do “Admirável Mundo Novo” que a década dos 90 tentou desenhar, redefinindo objetivos e caminhos mais sustentáveis e mais satisfatórios de desenvolvimento? A resposta não é fácil, pois existem vários impedimentos estruturais e institucionais bem sedimentados a qualquer trilha nova. Principal entre eles é o fato de que os interesses econômicos em torno do modelo atual são robustíssimos e muito atentos a qualquer tentativa de desvio de rumo. Mas, além disso, é difícil organizar iniciativas concatenadas e eficazes porque os governantes são de curto prazo e as decisões necessárias são de longo prazo: políticos com mandato local e curto simplesmente não tomam decisões em benefício da humanidade global. A questão mais urgente a resolver obviamente se refere à relação entre o modelo econômico e a questão ambiental. O desequilíbrio de forças entre esses dois domínios é gritante, pois o arcabouço de incentivos e sanções na área econômica, mesmo sem ser consensual, é muito eficaz. Em contraste, falta uma governança ambiental mundial capaz de impor ou implementar acordos internacionais efetivos. Portanto, os documentos que conseguem ser aprovados em foros internacionais são inócuos e descartam qualquer questão importante. A reforma institucional das Nações Unidas, que concederia à PNUMA poderes de implementação como aqueles que detêm a OIT ou FAO, foi aprovada por 140 países, mas continua travada pelos EUA.

 

Nesta ótica, fica evidente que os ganhos das Conferências da década de ’90 vêm se desfazendo com o tempo. Pode se dizer que a Conferência Rio + 20 enterrou de vez as intenções da Rio ’92.  Os propósitos de Copenhague foram esquecidos e a redução da pobreza se faz hoje via crescimento do PIB e transferências sociais. Os princípios de Beijing se mantém a custo de muito ativismo do maior movimento social da nossa época – o feminismo. Por mais que os movimentos sociais tivessem preferido avançar na agenda do Cairo ao celebrar Cairo + 20, foram obrigados a adotar uma atitude mais cautelosa face ao crescimento das forças conservadores e, por isso, optaram basicamente por reiterar os avanços de 1994 em vez de promover a agenda inconclusa do Cairo, ou discutir seriamente os temas urgentes de população e desenvolvimento que surgiram no intervalo.

O que resta das iniciativas e do entusiasmo da década de ’90? Sobrou a iniciativa das Metas do Milênio. No linguajar brasileiro, isto equivale a dizer que terminou tudo em pizza! As Metas do Milênio, e seu sucessor previsto – as Metas da Sustentabilidade – refletem impecavelmente a penúria da governança global. Ao unir os organismos internacionais e seus respectivos contrapartes nas agências nacionais em torno de metas quantitativas específicas e detalhadas, transformaram o ‘desenvolvimento’ numa caixa de Lego, onde as peças separadas e mensuráveis se encaixariam num todo mais vistoso, mas inócuo. Direcionaram os esforços de desenvolvimento dos países para alcançar metas parciais e para montar sistemas de informação capazes de medir o êxito em cada uma destas áreas, canalizando energias para conseguir uma série de resultados parciais (ou até para ‘colorir’ os dados). Só que ao fazer isso, perdeu-se a apreciação do conjunto, ou seja, do próprio sentido do desenvolvimento.   A soma dos indicadores, mesmo alcançadas as metas, não significa ‘desenvolvimento’ e nem redução de desigualdades. Na realidade, essa preocupação com metas parcializadas terminou anestesiando qualquer debate crítico sobre: O que é desenvolvimento? O que é sustentabilidade e como se atinge? Quais são as causas do sub-desenvolvimento?  Quais são as origens das desigualdades? Por que há necessidade de reformas globais estruturais? Como proceder?

 

Enquanto a preocupação das agências de desenvolvimento se centram nas peças do Lego, perde-se o ímpeto para discutir o grande dilema da humanidade no século 21: Como controlar o ritmo de consumo sem travar o progresso social necessário e urgente?  Como substituir a ‘felicidade do consumo’ por outros valores complementares: individuais (relacionamentos sociais, saúde, segurança) e coletivos (equidade, recriação de capital social, participação, senso de comunidade)? Como fazer tudo isso antes que seja tarde?

 

A revitalização do sistema das Nações Unidas seria essencial para estabelecer uma nova governança global capaz de promover um desenvolvimento humano sustentável. O documento do Secretário Geral para a CDP do Cairo + 20 aborda uma série de temas absolutamente críticos para o futuro da humanidade: equidade, ameaças ambientais, padrões de produção e consumo, urbanização massiva, crise de juventude, envelhecimento populacional e migrações internacionais, entre outros. Entretanto, o passado recente não sugere otimismo quanto à probabilidade desta discussão despertar novos rumos globais. Precisamos de governança dos limites no uso de materiais, de energia e nas emissões de gases de efeito estufa, sim. Mas precisamos, em última instância, redefinir os objetivos do desenvolvimento.  Para poder contribuir a essa reconfiguração global, a ONU vai precisar de uma nova visão e a redefinição de suas estratégias. Vai precisar questionar seu papel na engenharia e na implementação de um paradigma de desenvolvimento baseado no crescimento material infinito no contexto de um planeta finito.

 

BIBLIOGRAFIA

Alves, José Eustáquio Diniz. 2012. “O fim do crescimento econômico.” Ecodebate, 24/10/2012.

Barnosky et al. 2012. “Approaching a state shift in Earth’s biosphere.” Nature 486:52-58, 07 June, Nature Publishing Group, 2012.

Jackson, Tim. 2009. Prosperity Without Growth: The Transition to a Sustainable Economy. Sustainable Development Commission. www.sd-commission.org.uk/.../prosperity_without_growth_report.pdf

Martine, G. O contraste entre o desenvolvimento sustentável na CIPD e a realidade atual. In: WONG, L. R. et. al. Cairo+20: perspectivas da agenda de população e desenvolvimento pós-2014, ALAP, Rio de Janeiro, 2014, pp 213-224

Rockström, J., et al. 2009. “A Safe Operating Space for Humanity.” Nature 461: 472 – 475.

UNEP. 2012. Emerging Issues in our Global Environment. UNEP Yearbook 2012. United Nations

 

[1] George Martine é Sociólogo/Demógrafo canadense que centrou sua vida profissional nos temas de desenvolvimento social, população e meio ambiente na América Latina, especialmente no Brasil. É autor de mais de cem publicacões referentes a esses assuntos. Recebeu seu Mestrado da Universidade de Fordham e seu PhD da Universidad de Brown nos EUA. Atuou como Diretor da Equipe de Apoio Técnico do UNFPA para a América Latina e o Caribe, foi Senior Fellow no Centro de População e Desenvolvimento da Universidade de Harvard, Coordenador de projetos de assistência técnica das Naciones Unidas ao governo do Brasil na área de desenvolvimento social, e Pesquisador Social na CEPAL/Santiago. Foi presidente da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP) nas gestões 2005-2006 e 2007-2008, além de participar do Conselho Consultivo da ALAP 2009-2010 e da ABEP 2013-2014.

 

[2] O Paradoxo  ou o Efeito de Jevons se refere à tese do economista inglês, W. S. Jevons, (em 1865) de que o progresso tecnológico que aumenta a eficiência no uso de um recursos (no caso, o carvão) acaba aumentando e não reduzindo o consumo daquele recurso, devido ao aumento da demanda.