Viagem à Espanha - Tour "Norte Al Sur"

 

Por Carlos Stozek

 

Onze horas de voo direto, entre Rio e Madrid. Três dias em Madrid e os restantes por várias cidades do país: Toledo, León, Oviedo, Covadonga, Santillana, Altamira, Santander, Bilbao, Briones (La Rioja), Santo Domingo da Calzada, (Caminho de Santiago), Aragón, Zaragoza, Montserrat, Barcelona, Peñiscola, (pequena península no mar mediterrâneo onde rodaram o filme El Cid, com Sophia Loren e Charlton Heston) Valencia, Alicante, Cavaca de La Cruz, Granada, Málaga, Puerto Banús (Marbella), Ronda, Sevilha, Córdoba, Viso do Marquês e Madrid.

- Requisitos: ter energia e disposição para andar muito pelas ruelas medievais, subir as centenas de degraus das milenárias escadarias irregulares e escorregadias, algumas bastante íngremes e carcomidas pelo uso.

- Um dos primeiros lugares turísticos que fomos visitar passando pela estação de metro Atocha, onde terroristas islâmicos mataram dezenas de passageiros, foi o Museu do Prado. Centenas de pinturas de tirar o fôlego. Obras de Goya (as duas Majas, a desnuda e a vestida), Velasquez, Ticiano, Rubens, El Greco e tantos outros artistas célebres. Merecia bem mais tempo nosso.

- A malha rodoviária é simplesmente espetacular. Absolutamente todas as estradas em ótimo estado e protegidas nas divisórias e acostamentos mesmo nas cidades mais remotas. O pedágio é praticamente inexistente. Vimos umas quatro ou cinco praças de pedágios em todo o circuito.

- Existe uma lei muito severa que proíbe motoristas de ônibus e caminhões de dirigir mais de duas horas e meia sem descanso. Verificado o tacômetro pela policia, a multa é contundente em caso de infração.

- O país possui a  segunda maior rede de trem-bala no mundo, no entanto, três importantes rotas estão desativadas devido aos altos custos de manutenção e das passagens.

- Impressiona ver centenas de torres eólicas e painéis solares em todo percurso. Estes últimos também cobrem os tetos de vários edifícios.

- A plantação predominante é de oliveiras.

- Atualmente a Espanha atravessa uma grave crise econômica e se podem notar muitas fábricas e estabelecimentos industriais com suas portas fechadas e letreiros de “se vende” e “se alquila”. Algumas cidades do interior dão o aspecto de estarem vazias e inabitadas, as ruas desertas, portas e janelas fechadas.

Vimos muitas obras que estão paradas. Nos fundos de nosso hotel em Madrid,  vários materiais de construção estavam abandonados num prédio vizinho. Prédios em plena Porta do Sol -- talvez a praça mais badalada da capital, e palco dos protestos “Los Indignados” de 2011-- tinham tapumes nas calçadas e armações nas fachadas com andaimes, com as obras visivelmente paradas.

- Como se sabe, 40% dos jovens estão sem trabalho e o índice de idosos é considerável, terceiro no mundo. Os custos de aposentadoria dos milhões de inativos e de seguro dos desempregados consomem a maior parte do orçamento nacional.

No entanto, o serviço público de saúde ainda é um dos melhores do mundo e a limpeza das ruas e estradas causou ótima impressão. Se pensarmos que a Espanha recebe 42 milhões de turistas (como se a população inteira da Argentina visitasse o país durante o ano), a infraestrutura e logística para fornecer todos os serviços básicos a este turbilhão de turistas é nada menos que fenomenal.

No momento, sentimos que a maior parte destes consiste de russos. O Gorbachev liberou geral... compram apartamentos e fazendas espanholas entre outras coisas, com preços regalados.

- O custo de vida nos pareceu ser um pouco maior que no Brasil. Para se ter uma idéia, o preço para ver um show de tablado/flamenco é de 120 reais por pessoa (40 euros), um maço de cigarros 15 reais, uma refeição simples 50 reais, um copo de cerveja num bar qualquer 7,50 reais, café expresso 6 reais. Um taxista argentino que vive lá faz 23 anos nos contou que voltará a viver na Argentina, onde sua pensão espanhola renderá muito mais.

- Em todos os lugares em que se paga ingresso, os maiores de 65 anos, sem distinção de nacionalidade, pagam uma tarifa reduzida, ou seja, a metade.

- Pensávamos que ao chegar á Espanha sentiríamos a presença de muitos africanos. Isto devido ao que vemos nos noticiários da TV com a chegada clandestina de milhares de africanos em embarcações que provém do continente negro. No entanto, são quase inexistentes e os poucos que vimos ganham suas vidas vendendo ilegalmente mercadorias nas ruas, usando do sistema brazuca de quatro cordas amarradas em cada canto do pano.

- As sacolas dos supermercados não são grátis, custam 10 centavos de euro.

- Apesar do mês de setembro ser considerado de “baixa temporada”, havia hordas de turistas por todos os lados. Hotéis e ruas abarrotados de estrangeiros. Todos comandados pelos guias turísticos com suas bandeirolas em alto apelidadas de “GPS”. Haja logística para satisfazer tanta gente.

A praça em torno da igreja Sagrada Família, em Barcelona, repleta de multidões tipo jogo Flamengo e Fluminense no Maracanã. Para poder ingressar no interior da igreja (lá estavam os mesmo guindastes que vi 35 anos atrás) era necessário fazer reserva via internet e mesmo assim a espera era de quase uma hora.  Antoni Gaudi, seu arquiteto, morreu atropelado por uma tranvia.

- Como provavelmente sabem, a Espanha foi dominada pelo período de 700 anos pelos muçulmanos, que construíram centenas de edifícios, como castelos, palácios e mesquitas, pontes e estradas, malhas de água e esgoto, que até os dias atuais servem as cidades. Finalmente foram expulsos. Pues nada!

- Rodando pelo país, norte, sul, leste e oeste, não vimos uma só favela.

- A Peñiscola, pequena península no Mediterrâneo, merece um capítulo á parte: o castelo de origem muçulmana situado no cimo do morro, serviu como residência do Papa Benedicto XIII, Pedro de Luna, desde 1411 até 1423. Lugar elegido por ele para exilar-se, devido haver outro Papa em Roma. Foi construído sobre as ruínas da antiga construção muçulmana pelos Cavaleiros Templários.

- A cidade de Valencia, terceira cidade do país em população, que nunca esteve ligada a interesse turístico como Madrid e Barcelona, nos impressionou pela sua modernidade e beleza. Um rio de nome Turia, de mais de cem metros de largura, que atravessava a cidade, na maior parte do ano tinha seu leito seco e servia de local de uso dos viciados em drogas, e quando chovia torrencialmente chegava a inundar a cidade.  Alguns anos atrás o rio foi desviado pela prefeitura e hoje comporta parques e jardins, centros de convenções, museus e teatros. Nada menos que formidável. O hotel que ficamos chamava-se Acqua 4, situado em meio da Cidade das Artes e Ciências, obra de Santiago Calatrava. Este, que está projetando a Cidade do Amanhã, no porto do Rio de Janeiro, tem muitos detratores que o acusam de erros crassos em seus projetos. Mencionam que num teatro nesta Cidade das Artes, existem 150 lugares de onde não se vê o palco e o Museu de Ciências foi projetado sem saídas de emergência. Que o orçamento original era de 300 milhões de euros e este triplicou e a cidade não dispõe destes recursos. Um aeroporto também construído por ele, depois de pronto, viu-se que não havia um saguão de espera na área de desembarque. Esqueceu.

Nosso guia comentou sobre uma declaração do próprio Calatrava: “Meus projetos inicialmente custam um milhão, saem por dois e depois três para mantê-los”.

- Percorremos tantas basílicas, catedrais, igrejas, monastérios, claustros e mesquitas que faria inveja ao turista em busca de uma peregrinação religiosa.

- Acidente: muitos países europeus exigem que turistas que ingressam em seus países tenham em mãos uma apólice internacional de seguro médico que cubra até 30 mil euros de gastos médicos e atendimento em hospitais. Fizemos isto, mas a apólice não foi exigida na aduana. Aliás, mal olharam nossos passaportes. Porém, uma senhora de nosso grupo, de origem cubana, caminhava na plataforma da estação onde tomaríamos a cremalheira (moderníssima) que nos levaria ao monastério de Montserrat, localizado a uns 500 metros de altura em meio das montanhas, quando de repente ouvimos gritos. A cubana tinha resvalado seu pé entre a plataforma e o trem e caído no vão de 20 centímetros. Seu corpo ficou entalado entre a plataforma e o trem. Ela foi puxada por outros viajantes que a portaram a um assento em um banco. Resumo: ela teve que ser levada para um hospital de Barcelona, onde ficou internada três dias e teve de voltar para Miami, encurtando em muito sua passagem pela Espanha.

- O lugar mais luxuoso que vimos foi Puerto Banús em Marbella. Centenas de iates que valiam entre três e mais milhões de dólares ancorados na enorme marina. Um mais lindo que o outro. Na elegantíssima rua frente aos barcos, lojas famosas de grife. Carros estacionados eram: Jaguar, Mercedes Benz, Porsche, Ferrari, Bentley, BMW, e vimos até um Corsa (tadinho...)  Você podia cheirar o aroma de dinheiro...

Pouco atrás, encontramos uma bonita avenida dividida com canteiros de flores e árvores de nome Julio Iglesias. De acordo com uma placa comemorativa, inaugurada pelo próprio.

- Em Alicante, uma cidade praiana do Mediterrâneo, fazia um calor de rachar. A Maite quis colocar os pés no mar. Ao voltar, contou rindo que tinha visto várias senhoras de topless. Tirou fotos.

- Falar em carros, na Espanha não é permitido o uso de películas escuras (insulfilm) em seus vidros. A frota automobilística do país era totalmente constituída de carros novos. Conclui-se que os preços destes são bem mais baratos que os do Brasil com seus impostos escorchantes.

Em Granada fomos levados para ver a famosa Alhambra. O passeio pelos palácios e jardins com uma guia durou três horas. Lugar belo e histórico porém o tour foi muito longo e cansativo.

- O ônibus nos deixou no centro de Málaga, “Malagueña salerosa”, uma parada de duas horas. Fomos visitar o museu de Pablo Picasso, filho ilustre da cidade. Que me perdoem os críticos de arte e seus admiradores, mas não conseguimos entender a maioria das obras. O que parece ser uma mulher com três mamas, um olho na testa e outro no umbigo, nos deixou perplexos. Dizem as lendas, que certa vez terminando seu jantar num restaurante em Paris, o dono não quis cobrar a refeição. Entregou a ele um guardanapo para que fizesse um desenho qualquer. Pablo pegou um lápis e desenhou dois triângulos e um círculo no alto destes. Escreveu: “As pirâmides e o Rei Sol” (Ra). Autografou: Pablo Picasso. O dono primeiro chorou de emoção e depois riu quando anos mais tarde vendeu a tela por vários milhões de francos. Os críticos comentavam extasiados a obra:  “Que linhas homogenias! Que profundidade de pensamento!”

- Não poderia deixar de mencionar o aeroporto de Barajas. Simplesmente enorme e moderníssimo. Os saguões são bem amplos e com esculturas. Os banheiros também, espaçosos, limpos e modernos. Letreiros luminosos vão avisando que você está a vinte minutos do portão “R”, depois 15, 10 e 5 minutos. No terminal T-4, ao deixar o avião, você sobe uns dois andares pela escada rolante, caminha 50 metros para outra escada rolante, anda mais 50 metros até outra escada rolante. Desce dois andares. Lá pega um trenzinho tipo metro, que em alta velocidade e em cinco minutos chega a outras escadas rolantes. Sobe dois andares, percorre outros 100 metros e encontra as esteiras com suas malas. Pode parecer confuso, mas se pensarmos que a cada 15 minutos chega outro avião com 500 malas, a operação é bastante eficiente. Anos luz do Galeão.

A organização da viagem, dos passeios, etc., foi digna de aplausos. Tudo funcionou de maneira cronometrada ao minuto. Não houve atrasos ou outros contratempos. Os nove hotéis que usamos foram bastante confortáveis com exceção daquele que ficamos em Barcelona, de nome Puxtel. Dizia ter quatro estrelas, mas acho que caiu uma...

Faltando três dias para terminar a maratona, a Maite notando meu cansaço, perguntava preocupada se eu tinha tomado meu remédio para a pressão, comentando que sua intenção era me manter vivo até o fim da jornada. “Sim! Tomei!” Ela riu tanto, ficou corada, demonstrando que era verdade...

Sim, ela ainda está comendo de minha mão.

- Mundo pequeno: 7 AM, segundo dia em Madrid. Desço para tomar o café da manhã e deparo surpreso com um amigo, o Paulo, advogado em São Paulo.

- Por último devo mencionar uma parte da viagem que nos comoveu muito. Rever depois de 25 anos, nossos queridos amigos Francisco (Paco) Acebes e sua meiga e terna esposa, a Carmina, que residem em Madrid. Por muitos anos colegas na Cepal de Santiago do Chile, Paco é conhecedor profundo das histórias de seu país com as quais nos deleitamos. O reencontro foi memorável, os momentos juntos saboreando as “tapas” e caminhando pelo Centro da cidade ficaram para sempre gravados em nossos corações... Gracias Paco! Vale!

Carlos

*15 dias, dois de voo e 13 de tour por ônibus.

 

Voltaram as Lembranças

                                                               

                                                                                      Por Marianne Schwandl

 

A Propósito da Viagem à Espanha

 

Carlos, reli com muito prazer seu relato de viagem.  Realmente uma viagem bonita.   Você conhece a Espanha quase toda (ou será que só falta a Galícia?).  Eu só conheço Barcelona (onde em 1972 fiz um cursinho express de verão para aprender espanhol), Málaga (onde continuei o referido  cursinho), Torremolinos e toda a Costa del Sol (onde trabalhava numa imobiliária, quase dois anos tentando vender apartamentos), e Madrid (onde arranjei um noivo).  A Andalucía, já naquela época só vivia de turismo, vinho, peixe e azeitonas.  Lembro os povoados no interior, inclusive Ronda, que pareciam abandonados, onde nas ruas empoeiradas, no calor diurno, só aparecia de vez em quando algum burro ou alguma senhora vestida de preto.  Puerto Banus já existia, mas não era todo esse luxo que você diz que é hoje.  Marbella era comparável a Torremolinos, ou seja, era mais turismo de massa, sem celebridades.  Mas me lembro que um dia vi o Júlio Iglesias caminhando sem ser assediado, na rua principal de Torremolinos tomando um sorvete de casquinha.  De noite vi o show dele.  A locomoção naquela época não era tão fácil:  uma viagem de Málaga a Madrid levava, tanto de carro como de trem, no mínimo umas oito horas.  De Barcelona a Madrid também.  Viajava de terceira classe (porque quarta não existia, e ganhava muito pouco).  Mas era feliz e não sabia. 

 

Desculpe, lendo seu relato voltaram as lembranças.