Curtas Memórias 2

PARTICIPAÇÃO SOCIAL PREMIADA

Udo Bock *

No meu conto anterior fiz referência ao impacto que me causou o contato com a realidade do trabalho das líderes comunitárias da Pastoral da Criança da CNBB no apoio às famílias sob sua responsabilidade nos processos de mudança cultural em benefício da sobrevivência e  desenvolvimento das crianças.

Naquela época, final da década de 80, eu estava completando cerca de 30 anos de experiência  na área de Comunicação, como Publicitário, atuando junto a Agências de Propaganda no  planejamento e gestão de campanhas de promoção dos mais diversos produtos: automóveis, eletrodomésticos, eletroeletrônicos, imóveis, instituições financeiras, cosméticos e perfumaria, produtos alimentícios, vestuário, calçados, relógios, comércio varejista, laboratórios farmacêuticos.

Em algumas dessas agências eu cheguei a trabalhar no planejamento de campanhas sociais tais como:

- a promoção de doações para o Exército da Salvação na época do Natal (base na atuação das bandinhas e corais em praças e ruas de maior tráfego de pessoas na cidade de São Paulo, por trás de um “caldeirão” apoiado em um tripé, que recebia a doação dos transeuntes);

- campanha de arregimentação de voluntários para o CVV – Centro de Valorização da Vida e Prevenção contra o Suicídio, (a campanha divulgava um número de telefone para cadastrar voluntários para fazerem o atendimento telefônico, pessoal e por correspondência, de pessoas que necessitam de apoio emocional e precisam conversar sobre as suas dores, dificuldades, alegrias. Em uma semana foi atingida a meta do número de voluntários objetivado e, o que não era esperado, foi recebido um grande número de telefonemas de pessoas que necessitavam deste apoio);

- e, em apoio ao UNICEF, a “Campanha do Soro Caseiro” pela redução da mortalidade infantil por desidratação e a “Campanha Criança e Constituinte”, mobilização da sociedade pela inclusão na Constituição Brasileira, em elaboração no Congresso, via Assembléia Constituinte, de Lei pela garantia de prioridade aos direitos da criança e do adolescente.

Na elaboração dessas campanhas sociais eu fazia parte dos grupos de planejamento e operações das agências de propaganda em que trabalhava, tendo contato somente com o briefing que relatava os objetivos, estratégias, público alvo da campanha, descrição do “produto” a ser divulgado, resultados de pesquisas e outros dados necessários à criação, produção e veiculação das mensagens. Esses briefings eram geralmente fornecidos por escrito ou até verbalmente pelas organizações sociais atendidas por essas agências.

Assim, a partir de minha experiência pessoal com a Pastoral da Criança na reunião de João  Pessoa, que relatei no “Curtas Memórias” anterior, em contato próximo com as pessoas que atuavam diretamente com as famílias beneficiadas, “vivenciando e sentindo” os problemas e os resultados, percebi a relevância da percepção pessoal dos desafios e oportunidades para um tratamento eficaz do trabalho de comunicação na área social.

As agências de propaganda, em sua maioria, atuam voluntariamente nessas campanhas. Os seus custos de planejamento, criação e operação da produção e veiculação das campanhas, não são remunerados. Adicionalmente, a agência mobiliza os seus fornecedores para a produção gratuita ou a custo sem lucro das peças da campanha (anúncios, folhetos, produção para rádio/TV, etc.). As agências, também, negociam com os meios de comunicação (jornais, revistas, emissoras de rádio e TV, etc.) obtendo a veiculação gratuita da campanha.

Para uma agência de propaganda decidir apoiar uma organização social é fundamental que seus funcionários, diretores de todos os seus departamentos e especialmente os “donos” da agência, estejam envolvidos e comprometidos. Eu, recém contratado pela Propeg Bahia, tratei de obter esse “de acordo” antes de me comprometer com as organizações sociais que pretendia apoiar. Aprovação total e entusiasmo por parte de Rodrigo Sá Meneses, Fernando Barros, Haroldo Cardoso, Luiz Gonzaga, Helmut Gondim, Jorge da Gama e Silva (o querido “seu Gama”, que nos deixou “antes do combinado”, como diria Rolando Boldrin ao se referir a amigos falecidos), Heitor Dourado, Elaine Wermelinger, Wilma Guarnieri, Amador Moura ... e outros colegas, grandes colegas.

Com base nesse apoio, passei a dar cobertura, em Salvador, às ações da Pastoral da Criança no norte e nordeste do país, em contato com a Irmã Maria Olinda da Silva, coordenadora da Pastoral para a região e iniciei um trabalho de apoio de comunicação a entidades e pessoas que faziam parte do CEDECA – Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da Bahia. Foi quando conheci o pessoal que fazia parte do escritório do UNICEF na Bahia, especialmente de Maria América Ungaretti, coordenadora do escritório; de Rui Pavan, na época consultor dessa área de direitos e posteriormente coordenador do escritório; e Yves de Roussan, consultor internacional do UNICEF para a área de Direitos da Criança.

As entidades e pessoas que formavam o CEDECA-BAHIA já tinham um histórico de participação conjunta na mobilização da campanha “Criança e Constituinte”, um movimento nacional que tornou possível, junto à Assembléia Constituinte, a inclusão do Artigo 227 da nova Constituição Brasileira, proclamada em 5 de outubro de 1988, que passou a reger os novos direitos da criança e do adolescente. Esse mesmo movimento atuou, a seguir, na formatação do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, Lei Nº 8.069, proclamada em 13/07/1990.

O UNICEF apoiou todo este movimento, desde o início, tanto na área de formatação do conteúdo quanto no “advocacy” e comunicação. As campanhas publicitárias eram assinadas pelo Conselho Nacional de Propaganda com criação e veiculação pela CBBA, agência da qual eu fui diretor, em São Paulo, antes de me transferir para a Propeg-Bahia.

E a Propeg-Bahia, pelo seu apoio ao CEDECA, foi premiada com um certificado de participação social, juntamente com várias entidades e personalidades baianas, logo após a promulgação do Estatuto.

Valeu !

* Udo Bock, Publicitário, foi Oficial de Mobilização Social do UNICEF de 10/1991 a 05/2.000.