Café com pólvora: meu batismo colombiano em 1964
- Marcos Candau
- 1 de abr.
- 4 min de leitura
Série: Minhas História nas Nações Unidas
Abril / 2026
O avião pousou em Bogotá na madrugada de 3 de abril de 1964. Era para ter chegado na noite do dia 1º, mas todos os voos internacionais desse dia haviam sido cancelados, em virtude do golpe militar no Brasil. Embarquei no Galeão, na tarde do dia 2, no primeiro voo da Varig autorizado a deixar o País, com uma escala prevista em Lima. Mas fomos obrigados a fazer uma escala forçada e não prevista em Viracopos, pois correra o boato de que o Jango estaria fugindo do Brasil naquele voo. Ficamos por umas três horas dentro do avião, naquele aeroporto, até que o exército examinasse a documentação de todos os passageiros.

Em Bogotá, esperava-me o colega mexicano Aliber Guajardo, encarregado de programas do UNICEF, de quem me tornei grande amigo no curso dos três anos em que trabalhamos juntos. Guajardo conduziu-me ao hotel e acertamos que ele me pegaria naquela mesma manhã para levar-me ao escritório, onde assumiria minhas novas funções e iria conhecer os demais colegas de trabalho.
No café da manhã no hotel, a primeira surpresa: a moça que servia as mesas perguntou-me se eu queria “un tinto”. Recusei e achei estranhíssimo que na Colômbia houvesse o hábito de se tomar vinho tinto no café da manhã. Como nada mais me ofereceu, pedi a ela que me trouxesse um café, ao que ela me respondeu: “pero usted me ha dicho que no queria un tinto”. Primeira lição colombiana: tinto = café.
Guajardo buscou-me no hotel e seguimos para o escritório, onde fui apresentado ao nosso chefe, René Cruz, e aos demais companheiros de trabalho. Já naquele mesmo dia fui informado de que iria acompanhar o Guajardo a uma reunião na cidade de Chiquinquirá, naquela semana, em uma fábrica de leite em pó patrocinada pelo UNICEF, cuja direção e os fornecedores de matéria-prima não estavam se entendendo.
Chiquinquirá, a umas três horas de carro de Bogotá, pode ser considerada como a Aparecida da Colômbia. Nossa Senhora de Chiquinquirá é a Santa Padroeira do País. Lá chegamos por volta da uma da tarde, almoçamos e seguimos para a reunião que começava às três. Ambiente pesado, muita discussão, ninguém se entendendo. Guajardo disse-me que não deveríamos intervir, salvo se nos convidassem a dizer algo. Também estava presente o engenheiro alemão Horst, que orientara a montagem dos equipamentos doados pelo UNICEF.
Depois de umas duas horas de iniciadas as discussões, o clima esquenta bastante e, de repente, o diretor da fábrica, que presidia a reunião, saca de um revólver, coloca-o à sua frente sobre a mesa e, apontando o indicador, passa a discordar fortemente de um grupo que pedia mudanças na condução da fábrica. Aí, percebo que não só ele, mas muitos dos participantes — quase todos, aliás! — estavam armados. Pergunto ao Guajardo: “Afinal, o que estamos fazendo aqui? E se houver tiroteio, onde é que nos escondemos? Pois acho que somos os únicos que não estão armados”. Guajardo disse-me que ficasse calmo, que esse tipo de situação era normal na Colômbia, mas que, no final, todos se entenderiam. E assim foi. A reunião terminou em paz, por volta de 7 da noite, e resolvemos todos ir tomar uma “aguardiente”.
Foto 1: Reunião do UNICEF em Santiago, Chile, 1965.
Foto 2: Conversa com pessoal da fábrica de leite em pó, em Chiquinquirá, Colômbia, cujo equipamento foi doado pelo UNICEF.
Foto 3: Presidente Figueiredo, dias antes de sua posse, recebe em audiência o Diretor-executivo do UNICEF, Henri Labouisse, e o representante no Brasil, David Haxton, e Marcos Candau, que organizou o encontro, 1979.
Aguardente
Finalmente, lá pelas 8, entramos novamente no carro e o motorista Ramón tomou a estrada de volta a Bogotá. Não andamos mais do que uns 10 minutos e fomos parados por uma patrulha do exército. Não podíamos seguir, pois houvera um ataque da guerrilha na estrada, com um carro e um ônibus atingidos por tiros, que deixaram alguns feridos. Era o começo das FARC — Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia — comandadas por um guerrilheiro conhecido como Tiro Fijo, que veio a se tornar famoso no País.
Voltamos para Chiquinquirá, conseguimos um quarto no único hotel da cidade, o Sarabita, cujo restaurante já estava fechado e não havia o que comer. O jeito foi conseguir uns sanduíches e continuar na “aguardiente”, para esquecermos aquele dia louco.
Nada mal para uma primeira semana na Colômbia. E eu pensando com meus botões: que diabos estou fazendo aqui? Será que não é melhor voltar logo para o Brasil, mesmo com o golpe militar?
Mas não. Trabalhei no UNICEF por exatos três anos, de 1º de abril de 1964 a 31 de março de 1967, quando fui para o Programa Mundial de Alimentos, em Roma, onde estive por quase cinco anos, e não me arrependi. Foi um trabalho gratificante, aprendi muito e conheci lugares fantásticos, não só no interior da Colômbia, mas em toda a região norte da América do Sul e Caribe: Equador, Venezuela, Guiana, Suriname e todas as pequenas ilhas situadas entre Trinidad e a Jamaica.
Viajei muito por todos esses lugares, conheci muitas cidades colombianas, adorei Bogotá e seu povo maravilhoso. Fiz muitos amigos que guardo até hoje no coração. Inesquecíveis!










